Em artigo, o Professor Rodney Luzio explica como o raciocínio lógico-matemático pode se mostrar um elemento extremamente eficaz no dia a dia

No livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, um dos diálogos entre a personagem central e o gato sorridente revela a dúvida da menina sobre qual caminho seguir: “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”, questiona a jovem. “Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o gato. “Não me importo muito”, retrucou Alice. “Então, não importa o caminho que você escolha”, disse o gato. Como podemos perceber, a resposta do gato foi baseada na razão, usando a lógica.

Esse trecho do livro mostra Alice diante de um exercício que fazemos, em média, 400 vezes a cada dia, 12.000 vezes ao mês, 144.000 vezes ao ano: tomar decisões. Desde o amanhecer, em situações rotineiras como escolher a roupa que iremos usar, ou o que tomaremos de café, até decisões mais complexas como casar ou decidir se compramos ou não uma casa. Escolher nos remete a estabelecer associações de causa e efeito. E decidir não é tarefa fácil. Dentre tantas competências que a Matemática espera desenvolver a partir do seu estudo, uma delas é a tomada de decisão.

O raciocínio lógico-matemático, aparentemente linear, cartesiano, pode se mostrar  um elemento extremamente eficaz à medida que perguntas como “E se?”, “E agora?” abrem um leque de opções e evidenciam vantagens e desvantagens em cada ação que queremos praticar. Em frações de segundos e, muitas vezes, tomados pela ansiedade, agimos baseados no que a maioria faria ou no que já fizemos, pois acreditamos que a probabilidade de errar será menor.

“As estruturas de raciocínio estabelecidas pela Matemática, quando bem desenvolvidas e exercitadas, facilitam a construção da visão macro em situações em que a ação recai sobre o micro”

Prof. Rodney

As estruturas de raciocínio estabelecidas pela Matemática, quando bem desenvolvidas e exercitadas, facilitam a construção da visão macro em situações em que a ação recai sobre o micro. Fragmentar caminhos e possibilidades, como a ideia de frações que podem ser juntadas como um quebra-cabeças, muitas vezes nos indicam o que vale ou não a pena fazer. Embora muitos matemáticos deixem os aspectos afetivos em um plano inferior aos aspectos lógicos e racionais, saber alinhá-los é de extrema importância.

A Neurociência, a Psiquiatria e tantas outras ciências nos dão pistas valiosas de como o cérebro funciona e de como o ser humano tende a agir. Estudos mostram que atitudes baseadas apenas na emoção se sobrepõem àquelas baseadas na razão. Apesar de termos bilhões de neurônios que realizam trilhões de sinapses, sabe-se que tendemos a direcionar o nosso raciocínio às regiões que se comunicam de maneira similar. Ou seja, a variabilidade, tão necessária ao desenvolvimento do raciocínio abstrato matemático, em muitos casos, não é praticada, por escolhermos os caminhos que emocionalmente nos “protegem” de desgastes ou sofrimentos. O erro, como aprendizado, parece ser evitado, pois possivelmente nos trará algum tipo de desconforto.

Nas aulas de Matemática, no Colégio São Luís, lidar com o erro dos estudantes e torná-lo representativo é um dos fatores de maior preocupação dos professores no processo de aprendizagem. Desenvolvemos, diariamente, a capacidade de o aluno interpretar uma resolução e avaliar a pertinência da resposta. Isso requer uma decisão.

Thomas Edison, Michael Jordan, J.K. Rowling, Walt Disney, Albert Einstein e tantos outros expoentes em suas áreas de atuação decidiram por não aceitar o erro e a negação como ponto final de seus sonhos e de suas convicções. Eles, você, eu, em inúmeros momentos de nossas vidas, devemos tomar decisões e à medida que lidamos com a aleatoriedade das ações e conseguirmos estabelecer alguma razoabilidade nas nossas decisões, podemos ter – desde a grata surpresa – até o reforço na convicção de que decidir pode se tornar um exercício que, sendo amparado no pilar do raciocínio lógico-matemático, tem chance maior de sucesso. Basta decidir por não desistir.

Rodney Luzio, professor de Matemática no Ensino Médio do CSL

* rodney.luzio@saoluis.org