Celebração de uma vida nova relacionada à fertilidade da terra

Na experiência que fazemos do tempo, as estações do ano configuram marcadores de extremos (verão e inverno) e transições (outono e primavera) em um ciclo de vida testemunhado coletivamente. A paisagem invernal, por exemplo, é o retrato do extremo do possível em muitas regiões, principalmente no extremo norte e no extremo sul. Não sem razão muitos povos comemoram o início da primavera como uma vitória sobre a morte, renascimento da vida expresso pela capacidade de transformação da natureza.

Em suas As Quatro Estações, oriundas de O conflito entre harmonia e invenção, Vivaldi foi capaz de colocar no violino de sua composição invernal toda esta tensão presente na expectativa de uma vida nova ou renovada. A execução do instrumento evoca a delicadeza de um ciclo cuja retração confirma a exuberância de potências. Curiosamente, podemos separar nossas festas populares no Brasil em Festas de Solstício de Verão e de Inverno.

Momento de reunião familiar e consolidação da vida comunitária por meio das relações de compadrio, anualmente as festas juninas são manifestações que traduzem a alegria do convívio, a celebração das mudanças de estações e a fartura das colheitas. Diversos autores e pesquisadores se dedicaram a estudar este conjunto de costumes que reúne inestimável riqueza cultural. O olhar para este ciclo de festas permite refletir sobre estas influências que nos formaram, formam e formarão. Por quais razões nos reunimos? Por quais motivos celebramos a vida? E qual é o papel de cada um na vida comunitária?

Muito antes de serem destinadas aos santos padroeiros, estas festas já estavam associadas aos rituais de fertilidade e à contemplação da natureza. Provavelmente, algumas festas estavam relacionadas ao solstício de verão e aos efeitos simbólicos que as variações solares teriam sobre os hábitos e costumes no plantio. A presença de dias mais longos e noites mais curtas em função da inclinação da Terra afetara profundamente aqueles que dependiam da produção agrícola para sobreviver.

Em um processo de apropriação cultural empreendido pelo Catolicismo em Portugal, cada dia de festa recebeu um Santo ao qual passou a ser dedicada, tendo sua nomenclatura alterada pelo nome selecionado. Temos então a Festa de Santo Antônio no dia 13 de junho, a Festa de São João no dia 24 de junho (cujas comemorações se iniciam na noite anterior) e a Festa de São Pedro no dia 29 de junho (a qual é dedicada em alguns lugares também a São Paulo). Portanto, a cada ano, seja comemorando o dia de nascimento do primo de Jesus, o santo casamenteiro ou aquele que tem as chaves do céu, os vínculos familiares e comunitários são ratificados pelo trabalho em equipe e pela divisão de tarefas na elaboração da festividade.

Em 2016, o Colégio São Luís selou seu compromisso com a valorização e reconhecimento da tradição do ciclo junino. De acordo com a faixa etária, em cada segmento de nossa escola, buscamos reafirmar o sentido maior da festa junina. Recuperamos brincadeiras tradicionais, danças e costumes regionais, contextualizando os estudantes na diversidade cultural de nosso país. Por meio da produção em artes visuais de nossos alunos e de sua participação nas barracas e brincadeiras, reintegramos os aspectos construtivos da festa. Cada um à sua maneira, alunos, professores, funcionários e familiares estarão contribuindo para este dia único de celebração da vida.

No dia 11 de junho seremos todos brincantes de São João. E assim como nas danças regionais encontramos sempre as formações em duplas, filas e rodas, nossa comunidade estará reunida para experimentar modos e maneiras de conviver e proceder. Ao nos reunirmos para uma festa junina nos reconectaremos com a experiência de viver e sobreviver em comunidade. Juntos, na fartura da produção sazonal, seremos capazes de confirmar nosso compromisso com a comunhão e com a vida sempre renovada. Cada arraial apresenta o testemunho da força que temos juntos para construir nosso mundo.

Viva São João!
Viva Santo Antônio!
Viva São Pedro!
Viva São Luís!

Paulo Renato Minati Panzeri
Coordenador da Dimensão Cultural da Humanística